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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A história de uma semente chamada ESCOLHA


Em sua sabedoria e amor infinitos, um dia Deus pegou um punhado de terra e o juntou a água de sua Misericórdia, fazendo um pouco de barro, até que uma forma sem vida jazesse sobre o solo...


Estava tudo em silêncio quando o Criador retirou de si mesmo algo que ainda não fora visto. Chama-se ‘ESCOLHA’

-"Esta é a semente da escolha”. Disse Deus colocando-a no peito daquela argila modelada por suas mãos.

A criação inteira admirou-se, fitando a forma sem vida nas mãos do Criador.




 "- Vejam como Ele olha para esta argila!" Comentavam os anjos. "-Olhem seus olhos repletos de amor! Ele parece chorar de alegria!". 

"-Eu darei vida a este barro e também todo meu Amor. Esta criatura será a mais amada por mim e a farei livre para me amar ou não, porque desejo que ela queira o meu Amor livremente." Disse Deus a todos os anjos.


Um anjo aproximou-se e falou:

- Mas e se ele...


- Se ele escolher não Me amar? – completou o Criador. – Venham, vou mostrar-lhes...



Livre do hoje, Deus permitiu aos anjos adentrarem um pouco o reino do amanhã.Os anjos perderam o fôlego diante do que viram: um espetáculo de puro Amor espontâneo. Devoção voluntária. Eles nunca viram algo assim... 


Os anjos permaneceram sem fala, enquanto atravessavam séculos de repugnância. Eles jamais viram também tanta injustiça, tanta sujeira. Corações maus. Guerras, morte,fome, destruição. Promessas rompidas. Lealdades esquecidas, coisas realmente terríveis...



O Criador avançou no tempo, cada vez mais adiante no futuro, até chegar junto a uma árvore. Uma árvore que seria transformada em um berço. Os anjos até puderam sentir o cheiro do feno que os cercava... 




-"Aqui descerei o mais baixo de todos os abismos para reencontrar minha criatura decaída. Aqui, neste berço de palhas começarei a dar fim a todo o mal que vistes". 

Um anjo quase chorando de espanto e dor pelo Amor do Criador, exclamou:

-"Mas como Tu, Senhor, Te aniquilarás a este ponto? O que te fará descer tanto?" 

-"O Amor..." respondeu o Criador, fazendo os anjos estremecerem por dentro. 

-"Vou mostrar a vocês ainda algo mais maravilhoso", disse Deus. -"Algo que nem mesmo vocês poderão entender perfeitamente. Vou mostrar a loucura do meu amor! Não busquem entender, somente adorem o Mistério que vocês contemplarão". 

-"Sim, assim seja", responderam os anjos em coro, quase cantando.

Depois, mostrou a eles que de outra árvore viria o remédio de tudo aquilo que viram ao longo dos séculos. Mostrou a elesum sinal até então desconhecido, feito com estacas de madeira.  

-"Eis aqui minha maior loucura!" Este será o sinal definitivo do meu Amor."



-"Como se chamará este sinal? " Perguntou um anjo. 

-"Chamarão de Cruz, mas na verdade não é outra coisa senão Amor." Respondeu Deus. 

-"Mas como será alto o preço deste Amor para Ti, Senhor!". 

-"Sim, será!" Respondeu Deus com um sorriso nos lábios, mas com o olhar marejado de lágrimas, lágrimas de dor e amor.


Outro anjo então indagou- "Não seria mais fácil não plantar a semente da escolha no coração do homem? Não seria mais fácil não conceder a escolha a este ser tão frágil e tão fraco?".

- Seria! – respondeu devagar o Criador. – "Mas, remover a escolha é remover o Amor. Sem escolhas o homem nunca poderá amar, pois o amor só nasce da livre escolha. 
Somente o Amor pode explicar porque quis esta criatura livre, e se não for pelo Amor vocês nunca entenderão minha lógica."


Depois de todo este espetáculo sem igual de até onde o Amor do Criador iria pela sua amada criação, Eles entraram novamente no jardim.


 O Criador olhou seriamente para a criação de barro. Uma inundação de amor paterno cresceu dentro d'Ele. Ele já "morrera" pela criação antes mesmo de havê-la feito, pois seu coração estava totalmente entregue por aquela frágil vida. 


O vulto de Deus curvou-se sobre a face esculpida e soprou. O pó moveu-se nos lábios do novo ser. O peito levantou, rachando a lama vermelha. As bochechas encarnaram. Um dedo mexeu-se. E um olho se abriu.


Porém, mais inacreditável que o movimento da carne foi o agitar-se do espírito. Aqueles que puderam ver o inusitado se admiraram de como era esplendida a alma do que antes era somente um barro inanimado.


-"Que belo!" Muitos dos anjos exclamaram. Outros cochichavam, admirados
:

- "Parece com... parece demais com... é Ele!"


Os anjos não falavam da face, das feições ou do corpo. Eles estavam olhando dentro – para a alma.

- "É eterna!" – ofegou um outro.

Dentro do homem Deus havia posto uma semente divina. A semente de si mesmo. O Deus todo poderoso e eterno havia criado o ser mais poderoso da terra. O Criador criara não uma simples criatura, mas outro "criador", alguém ao qual desejava por si mesmo e que chamara a plena comunhão consigo. E Aquele que escolhera amar criara um ser que que também podia retribuir este amor livremente.


                                        

E, ao olhar pela primeira vez aquela vida em suas mãos, Deus extasiou-se! Suas entranhas foram remexidas por aquela vida recém nascida de seu Eterno Amor.

 -"Meu filho!" Disse Deus em alta voz, como que bradando de uma imensa alegria. 

Os anjos comentavam: "-Nunca Ele chamou assim nenhuma criatura!" 

Atônitos, os anjos só podiam cantar esse Amor que sobrepujava todo seu entendimento, mesmo angélico.


Novamente um anjo aproximou-se e perguntou: -"E agora? O que acontecerá?"

-"Agora, Eu vou esperar."Disse Deus, sorrindo.

-"E esperar? Por que?" Perguntou sem entender esta divina espera.

-"Esperar que ele livremente me ame.Quem ama sempre espera, porque plantou no coração daquele ser amado a semente da escolha".

                           

Agora a escolha é nossa!

Dedicado a todos os que fizeram o retiro "Como argila nas Mãos do Oleiro". 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A escolha de Jesus por Judas.





Jesus sabia que Judas o iria trair? Entre os numerosos discípulos que o seguiam, Jesus designou doze para serem os mais próximos, para partilharem e continuarem a sua missão. Não foi com ligeireza que instituiu este grupo de doze apóstolos, foi depois de ter rezado toda uma noite.


Mas, a dado momento, Jesus apercebeu-se de uma mudança de atitude em Judas, um dos doze. Jesus compreendeu que ele se afastava interiormente, e até que o ia «entregar», como dizem os evangelhos. Segundo o evangelho de João, já na Galileia, muito antes dos acontecimentos em Jerusalém que deviam levá-lo à cruz, Jesus compreendeu o que se passava (João 6,70-71). 


Por que razão não afastou Judas nessa altura e o conservou perto de si até ao fim?


Uma das palavras que Jesus utiliza para falar da criação do grupo dos doze apóstolos dá-nos uma pista: «Não vos escolhi eu a vós, os Doze?» (João 6,70; ver também João 13,18). 




O verbo escolher ou eleger é uma palavra-chave na história bíblica. Deus escolheu Abraão, escolheu Israel para fazer o seu povo. É assim a escolha de Deus que constitui o povo de Deus, o povo da aliança. O que torna a aliança inabalável é que Deus escolhe amar Abraão e os seus descendentes para sempre. O apóstolo Paulo comentará: «Os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis» (Romanos 11,29).


Visto que Jesus escolheu os doze como Deus escolheu o seu povo, não podia mandar embora Judas, mesmo quando compreendeu que ele o ia trair. Sabia que o devia amar até ao fim, para atestar que a escolha de Deus era irrevogável. 




Os profetas, em particular Oseias e Jeremias, falaram em nome de um Deus magoado e humilhado pelas traições do seu povo, e que, contudo, não cessa de o amar com um amor de eternidade. Jesus não queria nem podia fazer menos: humilhado pela traição de um dos seus íntimos, não deixou de lhe demonstrar o seu amor. 






Ao baixar-se diante dos seus discípulos para lhes lavar os pés, fez-se o servidor de todos, também de Judas. E foi em particular a Judas que deu um bocado do pão partilhado: parcela de amor ardente que este levou consigo para a noite (João 13, 21.30).




Se queria ser fiel a seu Pai – ao Deus que escolhera Abraão e Israel, ao Deus dos profetas – Jesus tinha que conservar Judas perto de si até ao fim. Amava Judas mesmo quando este estava todo ele preso pelas trevas. «A luz brilhou nas trevas» (João 1,5). 








O evangelho diz que foi no momento em que deu o seu amor a Judas, no momento em que o ama sem nada ganhar com isso, que Jesus «foi glorificado» (João 13,31). Na mais opaca noite do ressentimento e do ódio, ele manifesta o brilho extraordinário do amor de Deus.

Por que razão são os evangelhos tão discretos sobre os motivos de Judas?

É espantoso que os primeiros cristãos não tenham escondido o fato de que um dos doze apóstolos entregou Jesus às autoridades hostis. Na verdade, este fato levanta uma dúvida sobre a pessoa do próprio Jesus: ter-se-ia enganado na escolha dos seus companheiros? 






Mas é igualmente espantoso que os evangelhos não digam praticamente nada sobre os motivos de Judas. Ficou decepcionado quando compreendeu que Jesus não era um Messias com um programa de libertação política? Pensou estar a agir no interesse do seu povo pondo fim à carreira de Jesus? Alguns supuseram que ele agia por amor ao dinheiro; outros que, ao contrário, agia por amor, para ajudar Jesus a dar a sua vida…




Sobre a razão do que Judas fez, só há nos evangelhos duas indicações. Uma é a evocação do diabo: foi ele que «meteu no coração de Judas a decisão de o entregar» (João 13,2). Mas isso só torna o enigma ainda mais impenetrável. O diabo, ou Satanás, é aquele que se opõe, ralha, calunia. 


Jesus apercebeu-se do ressentimento que nascera no coração de Judas e que estava enraizado de forma inabalável. Mas sobre o porquê, não há nem uma palavra, nem mesmo uma alusão.


A outra indicação é a referência às sagradas Escrituras. Sobre a traição de Judas, Jesus diz: «há-de cumprir-se a Escritura: Aquele que come do meu pão levantou contra mim o calcanhar» (Salmo 41,10 citado em João 13,18). 




É preciso compreender bem qual é, nos evangelhos, o sentido desta referência às sagradas Escrituras. Elas não são um cenário que determinaria de antemão o papel de cada ator. Todos os leitores atentos das Sagradas Escrituras sabem bem como ela propõe escolhas e coloca cada um perante as suas responsabilidades




Citando o versículo do salmo, «Aquele que come do meu pão levantou contra mim o calcanhar» (Salmo 41,10), Jesus não afirma que Judas não podia agir de outra forma, mas que Deus permanece o ator principal no que está a acontecer. Há o drama da traição, e ao mesmo tempo é Deus que está a atuar. 


Pois, se o que Judas está a fazer cumpre a Escritura, é de uma forma misteriosa que o projeto de Deus se realiza, Deus cumpre a sua palavra (Isaías 55,10-11). 


A referência à Escritura permite acreditar em Deus mesmo na noite, mesmo quando o que acontece é incompreensível.Acreditar que Deus, mesmo quando traido, está no comando de tudo, não pelo seu poder, visto que Jesus fez-se servo, mas pelo seu infinito Amor, que permenece inalterado mesmo no pecado do homem para consigo.


Se o ressentimento e o ódio de Judas permanecem incompreensíveis, o amor de Jesus «até ao fim» ainda está mais para além de toda a compreensão. 


Os evangelhos são tão discretos quanto aos motivos de Judas porque não querem satisfazer a nossa curiosidade, mas sim conduzir-nos à fé. Eles não revelam o abismo de trevas do drama de Judas, mas revelam a insondável e incompreensível profundidade do amor de Deus.


Não desistindo de Judas até o fim, Jesus nos mostra o Amor e a escolha irrevogável que Deus tem por nós, mesmo em nossas infidelidades e pecados.


Até o fim Jesus esperou a volta de Judas...da mesma forma espera a minha e a sua volta, desejando que diferente de Judas, acolhamos seu Amor que somente quer nos amar...IRREVOGAVELMENTE!


Obrigado pela escolha irrevogável do Teu Amor, Senhor!

 

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Livres para escolher





Muitas práticas religiosas não atraem por lhes faltar consistência



Há encontros e palavras de Jesus que dizem respeito a determinadas pessoas. Ao apóstolo Pedro foi confiada uma missão específica de ser rocha firme na edificação da Igreja. Testemunhas escolhidas de acontecimentos decisivos são o próprio Pedro, com Tiago e João. Doze são apóstolos, colunas do novo Israel de Deus, setenta e dois são os primeiros discípulos. O Evangelho relata que algumas mulheres acompanhavam o Senhor, servindo-O e aos Seus apóstolos com seus bens. Aquela que foi chamada apóstola dos apóstolos foi Maria Madalena. Um, dois, doze, setenta e dois...


Mas há uma outra categoria de destinatários da ação e da Palavra de Jesus: a multidão. Chama atenção o fato de que palavras muito exigentes sejam dirigidas a todos: “Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, e até à sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 25-26). Trata-se de uma provocação positiva à liberdade humana, chamada a tomar decisões que determinam um rumo de eternidade.


Jesus pede definições! Os chamados conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência são destinados, na justa medida, a todos os que querem segui-Lo (cf. Lc 14, 25-35). Não se trata de privilégios dos religiosos ou religiosas. “Qualquer de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”! É a pobreza, liberdade em relação aos bens materiais. Mais cedo ou mais tarde, todas as pessoas deverão confrontar-se com escolhas correspondentes aos valores que norteiam suas vidas e aqueles materiais, por mais importantes que sejam, só servirão para o bem se se submeterem ao bem maior. Além disso, no fim de sua caminhada na terra, na páscoa pessoal da morte, só passará o amor. Todos os bens ficarão do lado de cá!


Livres diante dos afetos: “Se alguém vem a mim, mas não me prefere a seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs, não pode ser meu discípulo”. Quando alguma pessoa é transformada em ídolo, ficando Deus em segundo plano, os afetos serão desequilibrados. Se Deus passa na frente, o amor às pessoas mais queridas será límpido, sem tomar posse uns dos outros. É o sentido transparente e universal da Castidade!


“Quem não carrega sua cruz e não caminha após mim, não pode ser meu discípulo”. Renunciar à própria vida! De fato, quem não encontrou a quem obedecer não se realiza plenamente, pois se fechará no terrível individualismo que conduz à infelicidade. E o melhor ponto de referência para a obediência, que significa “prontidão para ouvir”, é o próprio Deus.


Não estamos diante de recomendações piedosas, destinadas a um pequeno grupo, mas de decisões com as quais jogamos o sentido de nossa existência, tanto que, sem tais escolhas, somos parecidos com o homem que começou a construir e, não tendo como acabar, torna-se objeto de zombaria (cf. Lc 14, 29-30). Infelizmente, muitas práticas religiosas em nosso tempo não atraem por lhes faltar a consistência das escolhas. Estas sim, mesmo os que pensam de forma diferente as respeitarão, pois coerência de vida não se discute!


Não aconteça com os cristãos de nosso tempo, em sua batalha contra o mal, serem soldados sem estratégia (cf. Lc 14, 31-33). Superficialidade não convence ninguém! As armas adequadas estão à disposição de quem sabe escolher a Deus, reconhecendo-O mais importante do que todos os bens, afetos e até a própria vida. Quem assim se encontra municiado, participará da vitória que vence o mundo, não destruindo-o, mas o envolvendo na torrente infinita do amor de Deus Pai. “Eu vos disse estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo tereis aflições. Mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).


Cristãos com coluna vertebral! É o que clama nosso tempo. Estes serão sal para dar gosto ao mundo. “O sal é bom. Mas se até o sal perder o sabor, com que se há de salgar? Não serve nem para a terra, nem para o esterco, mas só para ser jogado fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Lc 14, 34-35).

Dom Alberto Taveira Correa
Arcebispo de Belém - PA


Adaptado do site da Canção Nova