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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ENCONTRANDO DEUS NO SILÊNCIO


Silêncio e oração


 

Se nos deixarmos guiar pelo mais antigo livro de oração, os Salmos bíblicos, nós encontramos aí duas formas principais de oração: por um lado o lamento e o pedido de socorro, por outro o agradecimento e o louvor. De forma mais oculta, há um terceiro tipo de oração, sem súplicas nem louvor explícito. O Salmo 131, por exemplo, não é senão calma e confiança: «Estou sossegado e tranquilo… Espera no Senhor,ó minh'alma, desde agora e para sempre!»

 

Por vezes a oração cala-se, pois uma comunhão tranquila com Deus pode abster-se de palavras. «Estou sossegado e tranquilo, como uma criança saciada ao colo da mãe; a minha alma é como uma criança saciada.» Como uma criança saciada que parou de gritar, junto da sua mãe, assim pode estar a minha alma na presença de Deus. Então a oração não precisa de palavras, nem mesmo de reflexões.

 

Como chegar a este silêncio interior? Por vezes calamo-nos, mas, por dentro, discutimos muito, confrontando-nos com interlocutores imaginários ou lutando conosco mesmos. Manter a sua alma em paz pressupõe uma espécie de simplicidade: «Já não corro atrás de grandezas, ou de coisas fora do meu alcance.» 

Fazer silêncio é reconhecer que as minhas inquietações não têm muito poder. Fazer silêncio é confiar a Deus o que está fora do meu alcance e das minhas capacidades. Um momento de silêncio, mesmo muito breve, é como um repouso sabático, uma santa pausa, uma trégua da inquietação.Por isso silenciar rima com confiar.

 

A agitação dos nossos pensamentos pode ser comparada com a tempestade que sacudiu o barco dos discípulos, no Mar da Galileia, enquanto Jesus dormia. Também nos acontece estarmos perdidos, angustiados, incapazes de nos apaziguarmos a nós mesmos. Mas Cristo também é capaz de vir em nosso auxílio. Da mesma forma que falou imperiosamente ao vento e ao mar e imediatamente  «se fez grande calma», Ele pode igualmente acalmar o nosso coração quando está agitado pelo medo e pelas inquietações (Marcos 4).

 

Fazendo silêncio, pomos a nossa esperança em Deus. Um salmo sugere que o silêncio é mesmo uma forma de louvor. Nós lemos habitualmente o primeiro verso do Salmo 65: « A ti, ó Deus, é devido o louvor ». Esta tradução segue a versão grega, mas na verdade o texto hebreu diz: «Para Vós, ó Deus, o silêncio é louvor». Quando cessam as palavras e os pensamentos, Deus é louvado no enlevo silencioso e na admiração.

 

A Palavra de Deus: trovão e silêncio

 
 
No Sinai, Deus falou a Moisés e aos Israelitas. Trovões, relâmpagos e um som de trompa cada vez mais forte, precediam e acompanhavam a Palavra de Deus (Êxodo 19). Séculos mais tarde, o profeta Elias volta à mesma montanha de Deus. Ali revive a experiência dos seus antepassados: tempestade, tremores de terra e fogo, e ele prontifica-se a escutar Deus falando-lhe no trovão. Mas o Senhor não está nos fenómenos tradicionais do seu poder. Quando o grande barulho pára, Elias ouve «o murmúrio de uma brisa suave», e então Deus fala-lhe (1 Reis 19).

 

Deus fala com voz forte ou numa brisa de silêncio? Temos de tomar como modelo o povo reunido ao pé do Sinai ou o profeta Elias? Provavelmente isto é uma falsa alternativa. Os fenómenos terríveis que acompanham o dom dos dez mandamentos sublinham a sua importância. 

Guardar os mandamentos ou rejeitá-los é uma questão de vida ou de morte. Quem vê uma criança correr em direção a um carro que passa, tem muitas razões para gritar tão alto quanto consiga. Em situações análogas, os profetas anunciaram a palavra de Deus de forma a fazer barulho as orelhas.

 

Palavras ditas com voz forte fazem-se ouvir, impressionam. Mas sabemos bem que elas quase não tocam os corações. Em lugar de acolhimento, elas encontram resistência. A experiência de Elias mostra que Deus não quer impressionar, mas ser compreendido e acolhido no silêncio. Deus escolheu «o murmúrio de uma brisa suave» para falar. É um paradoxo: Deus é silencioso e no entanto fala

 

Quando a palavra de Deus se faz «o murmúrio de uma brisa suave», ela é mais eficaz do que nunca para transformar os nossos corações. A tempestade do monte Sinai abria fendas nos rochedos, mas a palavra silenciosa de Deus é capaz de quebrar os corações de pedra. 

Para o próprio Elias, o silêncio súbito era provavelmente mais temível do que a tempestade e o trovão. As poderosas manifestações de Deus eram-lhe, em certo sentido, familiares. É o silêncio de Deus que desconcerta, porque é muito diferente de tudo o que Elias conhecia até então.

 

O silêncio prepara-nos para um novo encontro com Deus. No silêncio, a palavra de Deus pode atingir os recantos escondidos dos nossos corações. No silêncio, ela revela-se «mais penetrante do que uma espada de dois gumes, penetra até à divisão da alma e do corpo» (Hebreus 4,12). Fazendo silêncio, deixamos de esconder-nos diante de Deus, e a luz de Cristo pode atingir, curar e mesmo transformar aquilo de que temos vergonha.
Silêncio e amor

Cristo diz: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei» (João 15,12). Precisamos de silêncio para acolher estas palavras e pô-las em prática. Quando estamos agitados e inquietos, temos tantos argumentos e razões para não perdoar e para não amar facilmente. Mas quando temos «a nossa alma em paz e silêncio», estas razões desaparecem. 
Talvez por vezes evitemos o silêncio, preferindo-lhe qualquer barulho, palavras ou distrações quaisquer que elas sejam, porque a paz interior é uma questão arriscada: torna-nos vazios e pobres, dissolve a amargura e as revoltas e leva-nos ao dom de nós mesmos. Silenciosos e pobres, os nossos corações são conquistados pelo Espírito Santo, cheios de um amor incondicional. De forma humilde mas certa, o silêncio leva a amar.Que hoje você possa silenciar diante deste Deus que ama o silêncio.

Um bom dia a todos

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Silêncio é...


Silêncio é mansidão
Quando você não defende a si mesmo contra as ofensas
Quando você não chama por seus direitos
Quando você deixa Deus defende-lo
Silêncio é mansidão...




Silêncio é misericórdia
Quando você não revela a outros a falta de seus irmãos
Quando você prontamente perdoa sem remexer o passado
Quando você não julga, mas ora em seu coração
Silêncio é misericórdia...



Silêncio é paciência
Quando você aceita sofrimentos sem reclamar, alegremente
Quando você não procura consolações humanas
Quando você não se torna muito excitado
Mas espera, paciente, que a semente germine
Silêncio é paciência...


Silêncio é humildade
Quando não há competição
Quando você considera a outra pessoa melhor do que você
Quando deixa seu irmão brotar, crescer e amadurecer
Quando você, alegremente, abandona tudo no Senhor
Quando as suas ações podem ser mal interpretadas
Quando você deixa para outros a gloria da recompensa
Silêncio é humildade...


Silêncio é fé
Quando você guarda silêncio porque sabe que o Senhor agirá
Quando você renuncia à voz do mundo para manter-se na presença do Senhor
Quando você não se esforça para ser entendido
Porque é suficiente para você saber que o Senhor o entende
Silêncio é fé...



Silêncio é adoração
Quando você abraça a cruz sem perguntar “por quê”
Silêncio é adoração...









Madre Teresa de Calcutá
 Um bom final de semana para todos!

domingo, 23 de janeiro de 2011

Saber ouvir











Silenciar para escutar, escutar para poder amar

Nada mais gostoso do que a brisa num entardecer de verão, as vozes de animais, as cores perfeitas do poente, o perfume das florações, o sabor daquilo que é posto à mesa. Tudo nos faz bem e enche-nos de sentido. A vida ganha espaço.

No entanto, há de se reconhecer que nossa cultura nos bombardeia e estimula além da medida. Em vez de repouso, somos agitados e provocados a um prazer agressivo, sem alegria e felicidade. Parece que gostar de sossego é excentricidade: ficar sossegado é muito perigoso, pode parecer doença.

Tanto conhecimento produzido e ainda não nos demos conta, enquanto sociedade e como pessoas detentoras de saber, de que o prazer dos sentidos só existe na justa medida. No cotidiano de nossa vida pessoal e social, temos as experiências que nos provam esta verdade: se come e se bebe em excesso, o perfume é muito forte, o ruído ultrapassa a quota dos decibéis, o tocar se extrema, aí então, o prazer transforma-se em desprazer, a delícia em desgosto. Nada se aproveita, tudo se liquefaz.

Uma das janelas da alma é o escutar. Escutar é diferente de ouvir. Neste momento estou ouvindo muitos e diferentes barulhos, mas não estou escutando nada. O ouvir está ligado diretamente ao sentido da audição. Entender, perceber pelo sentido do ouvido, faz parte de nosso instinto da sobrevivência, das ferramentas que nos possibilitam continuar vivos.

Escutar, por sua vez, significa prestar atenção para ouvir; dar atenção a; ouvir, sentir, perceber…” ou ainda: “tornar-se ou estar atento”. Temos aí, diferentemente de ouvir, um escutar que nos aproxima e nos completa, nos garante a vida, nos faz diferentes, pois escutar é transformador. Se é verdade que a vida tem sentido na emoção de amar alguém, então é bem verdade que ao escutar uma pessoa, ou ter a experiência de ser escutado, fazemos a vital experiência de ser amado e de amar.

A mãe quando escuta o filho com seus conflitos está oportunizando crescimento através desse gesto amoroso; o médico, ao escutar o paciente que, sem pressa e sem conceitos de medicina, apresenta seu jeito de se diagnosticar, já está possibilitando o início do processo de cura; o amigo que atenciosamente escuta, sem nenhuma necessidade de oferecer resposta pronta, apenas escuta porque ama, sabe ser um porto seguro para as tempestades internas do seu querido amigo; o religioso que, humildemente, oferece, de forma paciente, seu “escutar” àquele que já está sem esperança, recupera vidas. E assim, tantos outros “escutadores de almas e corações” que salvam, libertam e curam, muitas vezes sem saber que fazem tudo isso apenas por possuírem a arte de escutar bem. Saber escutar alguém é obra de Deus. Quem sabe, nos dias atuais, precisamos mais de “escutátoria” do que oratória.

Silenciar para escutar, escutar para o outro sentir-se amado
Escutar, antes de tudo, é uma maneira de deixar o outro crescer: no momento em que é escutado, sente-se acolhido e amado. E, que mais uma pessoa deseja além de ser acolhido e amado por alguém? Parafraseando Rubem Alves, “é preciso saber escutar… deixar o outro entrar dentro da gente”. A maravilha de acolher o outro em sua totalidade: existe forma mais verdadeira de amar? A medida de amor que oferecemos pode ser expressa no tempo que guardamos aquilo que nos foi confiado, segredado ao pé do ouvido: amo você na medida em que permito que faça morada em meu coração. Escutar é garantir abrigo a quem, por não receber atenção e amor, perambula ao relento.

Escutar é um exercício que ensina amar, escutar o silêncio de quem se aproxima; escutar o seu estar presente e as dores que o fazem ausentar-se da beleza da vida; também escutar o seu calar, revelador de sua alma. Escutar não se reduz a identificar palavras e compreender histórias: é também decifrar os silêncios de uma presença que reclama maior atenção de nossa parte. Escutar as vozes emudecidas que, sem força, ousam ecoar pedindo ajuda para continuar a viver com dignidade.

Escutar é devolver a luz para aqueles que estão mergulhados nos ruídos que, aos poucos, vão escurecendo seus sonhos. Escutar é cuidar de um coração, de uma vida, garantir que a história poderá ter continuidade. Escutar é deixar que o outro também exista.

Façamos o exercício de silenciar dentro de nós para escutar com amor. Lya Luft soube pedir: “me dêem isso: um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas, a chuva nas lajes, e tudo o que fala muito além das palavras e todos os textos e da música de todos os sentimentos”. Se assim for, começaremos a escutar coisas que não ouvíamos. Cessando os ruídos, ouviremos o que é realmente belo. No escutar o outro, garantimos que a beleza mora nele. E poderemos saborear a comunhão com que sonhamos, que existe somente quando a beleza do outro e a beleza da gente se liga, ou melhor, se deixa escutar.

Quem sabe, descobriremos que Deus é a beleza que se escuta no silêncio.